A pressão de perder o BV (o tal do “boca virgem”)

Esse é um artigo que adoraria escrever para a Marina (euzinha) do passado, pois teria sido muito importante ter ouvido isso na minha época. Falar sobre o primeiro beijo para mim era algo que poderia ser muito difícil e delicado. Porém, compartilhar a minha história pode ajudar muitas pessoas também que estão passando pelas mesmas pressões.


Para começar, é importante dizer que eu sempre fui uma pessoa muito tímida e criativa. Sempre gostei de imaginar muitas situações na minha cabeça, mas vivia pouco no mundo real. Adorava desenhar, fazer personagens, assistir desenhos, criar histórias fictícias na minha cabeça e até romantizar com pessoas que não existiam era algo comum para mim. Ter alguma relação romântica na realidade era algo inalcançável.


Eu podia passar horas sonhando com um personagem aleatório, imaginando como seria incrível viver e namorar enquanto na realidade eu não conseguia ter interesse por ninguém. Durante a minha vida escolar, por volta dos 10 aos 17 anos, foram anos muito difíceis com muita pressão. Todos os colegas de classe precisavam saber se você já tinha dado seu primeiro beijo. Para eles, essa era a primeira porta a se abrir da vida “adulta” naquele momento, então parecia que meus colegas estavam desesperados e muito apressados para alcançar a transformação.

Era uma pressão constante e muito sufocante. Tenho quase certeza de que isso fez me apegar a coisas mais fantásticas, justamente porque eu não conseguia achar ninguém interessante o suficiente, ou, quando começava a nutrir sentimentos por alguém, era tudo muito platônico. O máximo que eu conseguia eram olhares ou situações bobas do dia a dia, como emprestar uma borracha ou conversar por três minutos depois do recreio.


A sociedade vê o primeiro beijo como o primeiro passo para a vida “adulta”, pois você dá início a alguma relação com outra pessoa e isso pode acarretar em situações mais complexas (como sentimentos diferentes e intensos, intimidade, limite entre namoro ou amizade, etc.). É um rito de passagem que muitos adolescentes consideram importante e até ficam obcecados para encontrar uma pessoa especial (ou nem tanto, né?) e beijar o quanto antes.


A expectativa que as pessoas tinham sobre perder o BV (boca virgem) ou BVL (boca virgem de língua) era gigantesca. Com o passar do tempo, percebi que as amigas da classe começam a ter os primeiros beijos e eu era a única que não tinha conseguido. Eu sempre me senti muito esquisita, como se fosse excluída de um rito de passagem que todo mundo havia experienciado, menos eu.


Lembro algumas vezes que uma amiga falava comigo: “Marina, quero te ajeitar para fulano! Ele gosta de você!”. Parecia um absurdo negar algo desse tipo na escola, como se essa amiga estivesse fazendo um grande favor para eu virar “adulta” logo. Eu odiava essa fase que todo queria me “ajeitar” para alguém, porque, aparentemente, todas as pessoas da classe ficaram sabendo que eu não tinha beijado ainda. Eu não conseguia achar aquilo normal e muito menos ter vontade de ficar com alguma pessoa. Na escola, eu sempre fui taxada como uma menina de “personalidade forte”, só porque eu era sincera e falava “não” enquanto todo mundo aceitava aquilo.


A situação mais próxima que tive de perder o BV na escola foi quando estava na sétima série e eu não tinha amigos próximos na classe nessa época. Eu socializava com amigos que sentavam perto de mim na aula, mas não era uma amizade próxima. Por conta disso, comecei a olhar para outras pessoas no recreio, para ver se encontrava amigos diferentes. Foi aí que comecei a conversar com um menino que era de uma classe acima da minha. Nós logo trocamos MSN (sim, não tinha Whatsapp nem DM no Instagram) e começamos a conversar muito depois da aula. Entendi que eu estava me apaixonando, mas, ao mesmo tempo, estava muito solitária naquela época.


Estava extremamente feliz de ter alguém com quem contar e também que poderia ter algo a mais. Até que, um dia, ele me convidou para passarmos a tarde na escola conversando. Era algo que nós ainda não tínhamos feito, pois nossas conversas aconteciam no recreio ou pela internet. Foi em uma tarde que nós ficamos conversando na biblioteca da escola por muito tempo e lembro que, em um dado momento, ele começou a aproximar seu rosto do meu. Ok. Preciso dar uma pausa aqui para falar o quanto eu me sinto ridícula falando isso hoje (risos), mas olha só o que falei para ele: “eu não quero isso, eu queria um amigo”.


Acredito que vocês conseguem entender tudo o que eu estava passando naquele momento e o que eu mais queria era apenas alguém com quem eu pudesse contar. Apesar de ter sentimentos por ele naquela época, eu não conseguia pensar em outra coisa. Eu só queria ser aceita e confiar em alguém. Depois disso, ele ficou muito bravo e não quis mais falar comigo. Lembro de levar umas belas encaradas de ódio no recreio só porque eu disse “não” e fui sincera.


No ensino médio, continuei me sentindo diferente das pessoas. Troquei de escola e consegui me aproximar de meninas muito legais! Mesmo assim, todas elas já tinham dado os seus primeiros beijos e algumas já tinham começado a namorar. Eu continuava naquela mesma situação de fantasiar relações com pessoas que eram inexistentes ou que eram muito inalcançáveis. Eu me sentia um patinho feio e vivia me questionando se tinha algo de errado comigo.


Para vocês terem uma noção, só fui perder meu BV aos 19 anos na faculdade. Para algumas pessoas, perder o BV nessa idade era um absurdo. Ainda mais na faculdade, onde todo mundo exala sexualidade e só se fala nisso. A pressão para beijar pela primeira vez na minha cabeça era tanta que, na época, isso se tornou uma vergonha muito grande e acabei omitindo ser BV por muito tempo. Confesso que perder o BV foi como tirar um peso gigantesco nas minhas costas, como se eu tivesse passado num vestibular ou concurso. Bizarro, né? Logo depois, já veio a próxima etapa desse sofrimento: perder a “virgindade”. Mas isso deixo para outro texto!


Tá bom, eu sei que vocês querem saber como foi o meu primeiro beijo! Beijar pela primeira vez é estranho e até meio nojento. Porque, basicamente, você troca saliva com outra pessoa, mas aos poucos você vai acostumando com essa ideia de entrelaçar as línguas e brincar de explorar a boca do amiguinho ou amiguinha (risos). O date foi no cinema, acho que “assistimos” a algum filme do Piratas do Caribe. Algo que eu lembro muito do meu primeiro beijo foi bater os dentes toda a hora porque tanto eu quanto meu amigo estávamos nervosos. Se isso acontecer com você, não se preocupe! É normal, mas também evite fazer isso das próximas vezes, porque dá muita aflição!


O que eu queria falar com tudo isso? Está tudo bem se você não quiser beijar ninguém, não tem problema se você não sente vontade de fazer algo. Respeite o seu momento! Algo que eu ouvia muito naquela época era que “todo mundo tem seu tempo”. É a mais pura verdade. Lembre-se que a idade certa para beijar pela primeira vez não existe! Não se sinta envergonhada de algo que você não quis fazer porque a escolha foi sua.


Outro recado importante que eu queria deixar é: se você já perdeu o seu BV, BVL ou sua virgindade, não amplifique ou deixe outras pessoas projetarem bullying em outras só porque elas fizeram outras escolhas. Não permita que as pessoas julguem outras apenas porque não tiveram a mesma experiência que você naquele determinado momento. Importa se sua amiga beijou ou se transou? O que deveria importar é quem ela é e as escolhas que ela faz.


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