Você é sua melhor companhia

A ideia de que você é sua própria companhia pode parecer muito radical para algumas pessoas, mas, na minha opinião, esse conceito de ser um indivíduo completo pode ajudar (e muito) na sua autoestima! Isso foi o que me ajudou a me libertar de um relacionamento abusivo (que eu conto em outro texto aqui), me ajudou a ser mais independente, menos submissa e muito mais feliz! Lembrando que, novamente, nesse texto eu trago uma visão de mulher, cis, branca, privilegiada, heterossexual, mas acredito que possa ajudar muitas pessoas no caminho da autoaceitação.


Primeira coisa que você precisa entender, desde o momento que você nasce, é que você já é um ser humano completo. Essa ideia de encontrar a sua tampa da panela, seu príncipe encantado, metade da laranja só é conversa pra vender filmes românticos e animações da Disney, hahahaha! Brincadeiras à parte, é óbvio que é super legal ter alguém junto com você, mas lembre-se de que isso não deve ser a sua prioridade da vida.


Eu me lembro de conhecer uma amiga que não parava de repetir em todos os rolês que ela precisava de um boy. Era uma pressão constante que ela colocava na cabeça dela, simplesmente porque ficar sozinha a aterrorizava. Mas o que tem de tão assustador ficar sozinha? Por que a ideia de ter que aturar sua própria existência sem ter alguma pessoa atrelada a você é algo de outro mundo?


A gente precisa entender que a sociedade em geral foi construída para acharmos que nunca seremos felizes sozinhas, especialmente nós, mulheres. Muitas mídias diversas sempre nos mostraram que nossa maior felicidade estava relacionada a conseguir seu parceiro perfeito. Era quando a princesa encontrava o príncipe no final ou quando a mocinha da novela se casa com o mocinho. Esse sempre foi o clímax da vida da mulher retratado na mídia. Nós crescemos ouvindo essas histórias e, por isso, é compreensível quando uma pessoa adulta ainda tem pensamentos desse tipo enraizados na sua mente.


Uma mulher sozinha e feliz é assustadora para as pessoas, especialmente homens. Na verdade, foi algo que sempre me disseram e eu nunca entendi, hahahaha! O que é assustador? Eu não desejar homens o tempo todo? Não posso querer ser ambiciosa, desejar ter uma carreira legal e realizar meus sonhos? Desde pequena, eu escuto que assusto o sexo oposto. Na escola, apesar de ter muitos amigos meninos, eu via que eles não tinham muita coragem de dar um passo além comigo. Por exemplo, eu sabia por outras meninas que o fulano gostava de mim, mas que, infelizmente, ele tinha muito medo de falar comigo.


“Mas medo do quê?”, eu sempre perguntava. E o que me respondiam é que eu era muito direta, que era muito exigente, que falava muito de igual para igual e que nem todos estavam preparados para escutar a minha resposta (que provavelmente seria “não”). Eu sempre achei graça de tudo isso. Minha mãe também sempre me falava que eu assustava os meninos pelo simples fato de “ter personalidade forte”. Tudo parecia me dizer que eu deveria rebaixar minha personalidade, agir de maneira mais suave e delicada com o sexo oposto só para agradar e conseguir algum relacionamento.


Mas isso nunca fez sentido algum para mim; na verdade, eu sempre relutei e nunca “suavizei” minha opinião para ninguém. Além disso, eu acho que, se a pessoa não se sente confortável em ter uma mulher “bem resolvida” ao seu lado, que pena! Bora fazer uma terapia para tentar retomar a sua autoestima, porque a minha tá ótima.


Por anos, eu continuei ouvindo os mesmos comentários, como se fosse algo normal. Acho que depois de ter passado por um relacionamento abusivo anos atrás, ter superado e procurado formas de recobrar minha autoestima, esse conceito de ser super independente ficou cada vez mais claro para mim. Foi muito difícil passar por tudo aquilo, mas depois de ter finalmente colocado um fim eu tinha a seguinte missão: redescobrir quem eu era.


Como que eu me divertia antes? Com quem eu saia? O que eu deixei de fazer? Quais assuntos eu falava? Por isso, logo depois de ter me libertado dessa situação tóxica, eu parti em busca de me redescobrir. O que eu fiz para ajudar a recuperar minha autoestima? Primeiro, eu fui atrás de pessoas que me faziam bem. Fortaleci ainda mais meu grupo de amizades, me tornei próxima de pessoas positivas e que queriam o meu bem. Isso é essencial para você se sentir cada vez mais segura das suas escolhas.


Outra coisa que me ajudou muito foi consumir conteúdos (como já comentei no texto sobre o relacionamento abusivo) que fossem genuinamente positivos, que me fizessem sentir melhor comigo mesma e que também me fizessem dar muita risada (porque no meu caso eu também estava enfrentando a depressão). Lembro que, quando eu começava a me sentir triste, eu ligava o Netflix e colocava Meninas Malvadas na TV. Outros filmes altamente recomendados (de acordo comigo mesma kkk) que são capazes de curar qualquer coisa ruim são: As Branquelas, Todo mundo em Pânico 3 (tem que ser o 3!!!), Cara, cadê meu carro?, ou qualquer outro filme americano besteirol de paródia. Além de Rupal’s Drag Race, que sempre me ajudou a me sentir incrível e rendia altas risadas.


Podem ser coisas bobas, mas fazem muita diferença. Por ser algo simples, isso começou a me deixar mais disposta e até um pouco mais motivada para tomar outras atitudes. O que me levou a ir mais longe para me redescobrir. Então, resolvi seguir um conselho da primeira psicóloga em que eu fui na vida (que não era muito boa, mas foi o único conselho bom em 20 sessões). Certa vez, durante o meu relacionamento abusivo, ela havia me perguntado o que eu mais gostava de fazer. E eu respondi, sem gaguejar, “viajar!”.


Claro que o que eu vou contar daqui pra frente pode ser muito surreal para muitas pessoas, porque nem todo mundo nesse país tem condições de fazer algo parecido. Porém, pode servir de exemplo para quem quiser se inspirar a ser mais livre e feliz consigo mesma! Eu tinha o dinheiro, estava solteira, com vinte e poucos anos nas costas, sem nenhuma grande preocupação. Pois bem, resolvi viajar sozinha pelo mundo.


Fiz isso com muita cautela, sempre escolhi países que eu sabia que eram seguros para mulheres irem sozinhas e que eu podia andar na rua a noite com mais segurança. Meu primeiro destino foi Nova York, lugar que eu já tinha ido antes e amado, já sabia como me locomover, sou fluente em inglês e então eu só precisaria me jogar e ser feliz nas suas de Manhattan! E foi o que eu fiz! Algo muito maluco que eu comecei a notar é que, estando sozinha naquele lugar, eu poderia fazer O QUE EU QUISESSE. Então, se eu quisesse passar duas horas numa loja de roupas vendo os produtos, tudo bem. Se eu quisesse ir num museu super alternativo e ficar três horas dentro dele, tudo bem. Se eu quisesse comprar um livro e ir ler no parque, tudo bem também.


Como é gostosa a sensação de liberdade! Ninguém para te privar de suas vontades, ninguém para te aborrecer, ninguém para te forçar a fazer algo que você não quer. Isso é muito libertador! Voltei muito diferente dessa viagem, finalmente estava sentindo que a Marina estava de volta. Então, eu não parei mais. No outro ano, resolvi ir para vários países da Europa. Fiz amizades, andei muito, conheci lugares lindos, comi comidas super diferentes, tirava muitas fotos, fui livre.


Uma das coisas que as pessoas mais me perguntam é “mas você não se sente sozinha?” ou “mas, se você vir algo legal, com quem você compartilha?”. Gente, existe um negócio chamado INTERNET. Se eu sinto a necessidade de compartilhar algo da viagem, eu vou lá e faço stories, mando mensagem no WhatsApp, etc. Simples assim. Ficar sozinha sempre deve ser diferente de ser solitária, as pessoas confundem muito isso e esquecem que são seres completos.


Depois disso, eu fui mais longe ainda, fui para o Japão e depois de alguns anos fui para a Coreia do Sul. Países com línguas e culturas extremamente diferentes que a nossa, mas que foram lugares que me marcaram muito. Quando conversava com pessoas que eu conhecia durante a viagem, todos se espantavam que eu estava sozinha, demoravam para acreditar. Mas sempre fui muito firme nesse propósito de me redescobrir e me mudou completamente.


Essas viagens me ajudaram muito em situações do dia a dia. Às vezes, eu perdia um filme no cinema porque minha amiga não curtia, ou queria ir a um evento, mas ninguém podia ir comigo. Então eu comecei a ir sozinha e vou logo dizendo que é um caminho sem volta. Você aprende a lidar com muitas outras coisas, a ser mais forte e até (porque não) fazer novas amizades e crushes. Hoje em dia, eu tenho uma facilidade muito maior em conversar com estranhos, pedir informações e conseguir o que eu quero naquele momento.


Essas atitudes me ajudaram muito a lidar, principalmente, quando o final de semana chegava e com ele vinha a sensação de FOMO (Fear of missing Out, ou “medo de ficar por fora” de algo ou alguma coisa). Todo mundo estava saindo em eventos incríveis, sempre postando fotos felizes nas redes sociais, além do fato de que todas as minhas amigas estavam namorando e eu sozinha em casa. Para mim, os finais de semana eram o meu maior pesadelo, porque eu achava que precisava fazer algo com alguém.


Depois que me libertei, comecei a perceber que nem sempre a pessoa dos stories está super feliz ou aquele casal perfeito não é tão perfeito assim e que aqueles eventos na verdade eram super flopados e era melhor ter ficado em casa. Pois bem, eu tinha colocado na minha cabeça que a partir daquele momento, se eu quisesse ficar em casa, assistindo a Netflix o final de semana inteiro, TUDO BEM. A pressão por sair e socializar era tão grande que também me deixava insegura e até me forçava a ir em rolês que não faziam sentido para mim.


Entenda que você pode e deve fazer o que bem quiser. Se não quiser sair, não saia. Se quiser ir no cinema sozinha, vá. Se tiver uma exposição super legal, vá sozinha. Aos poucos, você vai perceber que o amor da sua vida é você mesma, que você é uma pessoa incrível para se passar um tempo e que você não tem medo de mostrar que está sozinha, porque você é uma pessoa completa!


Por isso, o que eu gostaria de passar para vocês nesse texto é que você realmente é sua melhor companhia. Você tem que ser interessante para você mesma e ficar sozinha com você mesma não deveria ser algo assustador, é apenas normal. Eu acredito que eu me tornei uma pessoa muito mais segura e minha autoestima melhorou muito com passar dos anos. Tá tudo bem estar sozinha, você não é menos especial por isso.


É como eu respondia para aquela amiga, do começo do texto: você não pode desejar ter um boy, você precisa desejar ser feliz. Você se apaixonar por uma pessoa ou não é apenas uma consequência de como você leva a sua vida. Não deveria ser a coisa mais importante dela.


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